quarta-feira, 9 de setembro de 2026

É A Bíblia LTT Não-Literal, Tendenciosa, Equivalência Dinâmica, Interpretação Particular No Texto E Interpretação Literal Relegada Às Notas (na melhor das hipóteses)?

 

É A Bíblia LTT Não-Literal, Tendenciosa, Equivalência Dinâmica, Interpretação Particular No Texto E Interpretação Literal Relegada Às Notas (na melhor das hipóteses)?

Hélio de Menezes Silva

Boa pergunta, e me dá a oportunidade de explicar o que provavelmente foi o meu maior norte duraante décadas como coordenador da tradução da LTT.

Antes de lhe responder:

Ninguém jamais diria que a KJV-1611/1769, a melhor tradução do mundo, é uma tradução por Equivalência Dinâmica, não é? Mas o fato é que, segundo levantamento por Scrivener, 4.111 notas das notas marginais no VT dão uma tradução mais literal do hebraico ou caldeu, e 112 das notas marginais no NT dão uma tradução mais literal do grego, no entanto os 47 tradutores da KJV desprezaram, preteriram as redações literais porque julgaram superior, melhor, uma tradução menos literal, e a colocaram no texto principal.

Portanto, fica evidente que, milhares de vezes, o texto principal da KJV não seguiu um literalismo mecanicamente 1-palavra-por-1- palavra, mas aquilo que chamo de "literalismo normal", que não procura forçar alegorismo nem interpretação particular, mas se dá o honesto e honroso direito semelhante ao de traduzir o português "ele e eu estamos batendo papo" para o inglês "we are chatting" ("estamos conversando informalmente"), e não para "he and I are repeatedly beating crop against crop."("ele e eu estamos repetidamente batendo gogó contra gogó")

Em outras palavras, milhares de vezes a nota marginal da KJV demonstra que seus tradutores sabiam e registraram uma tradução mais mecanicamente literal, mas julgaram melhor colocar outra tradução no texto principal.

Ser ao máximo fiel ao traduzir não significa consultar uma imaginária "tabela de tradução 1-palavra-para-1-palavra" e reproduzir mecanicamente, palavra por palavra, a forma superficial da língua original, quando isso produz, na língua receptora, um sentido diferente, incompleto, obscuro ou absurdo.

 

Passo a lhe responder:



 

PRIMEIRO: Tradução Literal-Normal, Inteligente, Espelhando  Figuras De Linguagem, Expressões Idiomáticas, etc.

Tenho diante dos olhos Marginal Notes in The 1611 King James Bible, 308 páginas. Há também na Internet uma lista pesquisável das notas marginais da KJV 1611.

Dois exemplos impactantes no VT e dois no NT:

Gênesis 25:28

Hebraico representado mais literalmente na nota marginal: "venison was in his mouth"

Corpo da KJV: "because he did eat of his venison"

Ou seja, algo como "porque a caça estava em sua boca" tornou-se "porque ele comia da sua caça". A própria fonte que transcreve as margens usa esse caso como exemplo particularmente claro de por que tradução não pode ser mera substituição mecânica de palavras.

 

Gênesis 29:6

Nota marginal: "Is there peace to him?"

Corpo: "Is he well?"

Portanto: "Há paz para ele?" → "Ele está bem?". Conservar mecanicamente as palavras paz + para + ele produziria inglês gramaticalmente compreensível, mas não transmitiria ao leitor inglês normal aquilo que a pergunta hebraica está perguntando.

 

1 Coríntios 4:3

Corpo da KJV: "man's judgment"

Nota marginal: "Gr. man's day"

Ou seja, o mecanicamente literal "dia do homem" foi traduzido como "julgamento humano". Ninguém acusaria a KJV de "Equivalência Dinâmica" porque não escreveu man's day. A tradução mecanicamente literal das duas palavras seria, neste contexto, menos clara para o leitor inglês comum do que a tradução escolhida pela KJV.

 

2 Coríntios 5:19

Corpo da KJV: "hath committed unto us the word of reconciliation"

Nota marginal: "Gr. put in us"

Portanto, o grego representado mais literalmente como "pôs em nós" foi traduzido pela KJV como "confiou/ entregou a nós" (committed unto us).

 

Lição: eu e todo tradutor fiel podemos e devemos fazer, no cômputo global, coisas do mesmo tipo e grau que os tradutores da KJV fizeram. Isso não significa imitá-los mecanicamente em cada palavra e verso: em alguns pontos podemos fazer o que eles não fizeram; em outros, não fazer o que fizeram; e, em determinado verso ou palavra, podemos adotar solução de tipo ou grau diferente daquela que a KJV adotou naquele ponto — desde que permaneçamos dentro do mesmo princípio geral de literalismo normal, buscando transmitir com máxima fidelidade o que o texto original realmente diz, e não aquilo que uma substituição mecânica palavra-por-palavra possa fazê-lo parecer dizer.

 

 

SEGUNDO: Cadeia de palavras unidas por hifens

Conjuntos de palavras ligadas por hifens ("-") correspondem a uma (1) só palavra em grego ou hebraico. Assim, além de procurar transmitir mais completamente o significado da palavra original, os hifens dão ao leitor uma informação que normalmente desaparece na tradução: todas aquelas palavras portuguesas, juntas, correspondem a uma única palavra na língua fonte.

Por exemplo, {G4697 σπλαγχνζομαι splagchnizomai} nem sempre pode ter toda a sua força adequadamente transmitida por uma única palavra portuguesa. A palavra está historicamente relacionada às "entranhas", consideradas como sede das emoções profundas, daí a ideia de ser profundamente movido de compaixão. Traduzir mecanicamente por algo como "ser-movido-nas-tripas" não comunicaria naturalmente o sentido à maioria dos brasileiros. Por isso, conforme o contexto, uma tradução tal como "ter- íntima- e- grande- compaixão" pode transmitir melhor a força da única palavra grega. Os hifens, ao mesmo tempo, avisam ao leitor: estas várias palavras portuguesas, juntas, estão traduzindo uma só palavra grega.

Literalidade não consiste em conservar mecanicamente o mesmo número de palavras. Consiste em conservar, tanto quanto possível, o significado, as relações gramaticais, as ênfases e até as ambiguidades do original. Se uma única palavra grega ou hebraica contém significados ou nuances para os quais o português necessita de duas, três ou mais palavras, usar essas várias palavras pode ser mais literal e mais exato do que forçar uma única palavra portuguesa que transmita somente parte do original.

Todas as traduções da Bíblia de orientação mais formal, desde versões dos primeiros séculos até Lutero, Tyndale, Reina, KJV e Almeida, quando necessário, traduzem uma palavra da língua fonte por mais de uma palavra na língua receptora. A peculiaridade da LTT é tornar isso visível: frequentemente liga por hifens as palavras portuguesas que, em conjunto, traduzem uma única palavra grega ou hebraica. Assim, o hífen não pretende dizer que essas palavras formam uma palavra normal do português; ele informa ao leitor que todo aquele conjunto corresponde a uma única palavra existente no texto original.

 

 

TERCEIRO: Porventura não é a LTT (propositadamente) PARCIAL, não literal, favorecendo sua posição doutrinária, Hélio?

Antes de responder, concordemos em uma coisa: não temos que escolher somente entre "literalidade absoluta e cega" versus "interpretação dinâmica/ paráfrase desenfreadas em cada verso". Toda tradução de um livro necessariamente envolve algum grau de interpretação, uma palavra aqui, outra 30 versos adiante. A questão é: quanto, quando, com que fundamento e sob que controle do texto e do contexto. Sejamos honestos: Toda tradução de um livro necessariamente envolve algum grau de interpretação, desde que seja a "literal- NORMAL", de todas as pessoas normais- educadas- inteligentes, que entendem óbvias figuras de linguagem, entendem que, em "o estudo é porta para o sucesso" não se está falando de portas de madeira e ferro!

 

RESPOSTA:

Certamente haverá pessoas que encontrarão alguns versículos nos quais, pelo menos à primeira vista (particularmente se consultarmos apenas léxicos e dicionários), parecem existir duas traduções diferentes, ambas linguisticamente possíveis, às vezes com implicações doutrinárias diferentes. E haverá quem acuse qualquer Bíblia (inclusive a LTT, claro) que escolha uma dessas alternativas de ter sido dirigida por uma "arbitrária posição teológica cega e preconcebida", em vez de ter sido totalmente literal- normal, e fiel.

Minha resposta é que, nesses raros casos, é inevitável que todo tradutor se baseie na mais sólida exegese. Dicionários não traduzem versículos: eles apenas apresentam dezenas de possibilidades de significado. Cabe ao tradutor determinar, pela gramática, sintaxe, contexto imediato, uso do autor e demais contextos bíblicos pertinentes, qual dessas possibilidades é realmente o sentido da palavra naquele lugar.

Portanto, se, depois de examinados honestamente todos esses elementos, ainda permanecerem duas traduções linguisticamente possíveis, não existe uma imaginária "tradução neutra" que permita ao tradutor escapar da decisão. Escolher uma delas já é uma decisão exegética.

O importante, nesses raros casos em que parece permanecer um verdadeiro "empate" entre duas traduções possíveis, é não escolher arbitrariamente nem fazer a teologia do tradutor violentar o texto. Primeiro, deve-se esgotar aquilo que o próprio texto fornece: léxico, gramática, sintaxe, contexto imediato, contexto do livro, uso do mesmo autor e demais passagens bíblicas pertinentes.

E, se ainda permanecerem duas possibilidades realmente admissíveis, considero legítimo e necessário perguntar qual delas se harmoniza melhor com toda a Escritura tomada literal-normalmente.

Isto não significa: "Minha doutrina diz X; portanto, farei o texto dizer X." Significa exatamente o contrário: "Não permitirei que uma possibilidade de tradução, entre duas linguisticamente admissíveis, faça uma passagem contradizer aquilo que outras passagens ensinam claramente."

Vou além: não me envergonho 1 mm de dizer, em alto e bom som, mesmo diante do mais severo crítico acadêmico, que, se, depois de muitas horas ou dias de estudo, permanecesse um verdadeiro e perfeito empate técnico entre duas traduções, ambas plenamente permitidas pelo grego ou hebraico, pela gramática e pelo contexto, eu não escolheria deliberadamente aquela que diminuísse aquilo que a Escritura, considerada como um todo, claramente ensina sobre Deus, Sua natureza e Seus atributos.

No Bema, o Tribunal para galardoamento dos salvos, prefiro prestar contas ao meu sublime Senhor podendo dizer que, entre duas traduções realmente admissíveis, e somente depois de esgotados todos os critérios linguísticos e contextuais, procurei não diminuir aquilo que Sua Palavra claramente revela a Seu respeito, em vez de dizer que, sob pretexto de uma impossível neutralidade, escolhi a alternativa contrária.

 

-Exemplo 1, abominável: "SANGUE" ou "MORTE"?
No extremo de abominável, em Mt 27:25; Ef 1:7; 2:13; Cl 1:20; Rm 3:25; 5:9; Hb 13:20; 1Rv 1:5, a BLH (Bíblia na Linguagem de Hoje) peca total e gravemente ao traduzir o grego "129 haima" (que é "sangue", em grego) para "morte"

Mt 27:25 E toda a multidão respondeu: —Que o castigo por esta MORTE caia sobre nós e sobre os nossos filhos! NTLH

Ef 1:7 Pois, pela MORTE de Cristo na cruz, nós somos libertados, isto é, os nossos pecados são perdoados. Como é maravilhosa a graça de Deus, NTLH

Ef 2:13 Mas agora, unidos com Cristo Jesus, vocês, que estavam longe de Deus, foram trazidos para perto dele pela MORTE de Cristo na cruz. NTLH

Cl 1:20 Portanto, por meio do Filho, Deus resolveu trazer o Universo de volta para si mesmo. Ele trouxe a paz por meio da MORTE do seu Filho na cruz e assim trouxe de volta para si mesmo todas as coisas, tanto na terra como no céu. NTLH

Rm 3:25 ( 25 - 26 ) Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua MORTE na cruz, Cristo se tornasse o meio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. Deus quis mostrar com isso que ele é justo. No passado ele foi paciente e não castigou as pessoas por causa dos seus pecados; mas agora, pelo sacrifício de Cristo, Deus mostra que é justo. Assim ele é justo e aceita os que crêem em Jesus. NTLH

Rm 5:9 E, agora que fomos aceitos por Deus por meio da MORTE de Cristo na cruz, é mais certo ainda que ficaremos livres, por meio dele, do castigo de Deus. NTLH

Hb 13:20 ( 20 - 21 ) Deus ressuscitou o nosso Senhor Jesus, que, por causa da sua MORTE na cruz, é o Grande Pastor do rebanho. E é por meio do sangue de Jesus que a aliança eterna é selada. Que o Deus de paz lhes dê tudo de bom que vocês precisam para fazer a sua vontade. E que ele, por meio de Jesus Cristo, faça em nós tudo o que lhe agrada. E a Cristo seja dada a glória para todo o sempre! Amém! NTLH

Ap 1:5 e da parte de Jesus Cristo, a testemunha fiel! Ele é o primeiro Filho, que foi ressuscitado e que governa os reis do mundo inteiro. Ele nos ama, e pela sua MORTE na cruz nos livrou dos nossos pecados, NTLH

 

(referindo-se a Cristo) ao invés do literal "sangue" (de Cristo), e isto é totalmente inaceitável, está perto do oposto do literalismo, nem mesmo é tradução, mas sim odiosa distorção e traição, e isto repudio completamente.

 

Exemplo 2, não usual, mas bíblico e vantajoso: "É" ou "REPRESENTA"? Considerando que

(a) a forma verbal "2076 esti", usualmente traduzida como "é", também é traduzida como "significa" em Mt 9:13; 12:7; Lc 8:11; Atos 2:12;

Mt 9:13 Ide, porém, e aprendei vós o que SIGNIFICA: 'Misericórdia quero, e não sacrifício'. Porque não vim Eu convidar- chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento."

Mt 12:7 Se, porém, vós tivésseis sabido o que SIGNIFICA: 'Misericórdia quero, e não sacrifício', não haveríeis condenado aqueles que estavam sem culpa.

Lc 8:11 E SIGNIFICA isto a parábola: a semente é a Palavra de Deus;

At 2:12 ¶ Ora, se admiravam todos, e estavam- em- dúvida- e- perplexos, dizendo uns para os outros: "Que quer isto SIGNIFICAR?"

(b) as ocorrências de "são" em Rv 1:20 "O mistério das sete estrelas que viste sobre a Minha mão- direita (e dos sete lampadários de ouro) é: As sete estrelas REPRESENTAM os mensageiros das sete assembleias, e os sete lampadários que viste REPRESENTAM as sete assembleias." são entendidos como "representam, significam", seria total loucura considerar que estrelas literais, com milhões de quilômetros de diâmetro, são literais anjos ou mensageiros- pastores de assembleias, e que assembleias literais são castiçais literais, feitos de algum metal;

(c) na linguagem coloquial, nós apontamos para uma fotografia e dizemos "este é fulano", e a forma verbal "é", aí, tem o sentido de "significa, representa, é símbolo de, é figura de, serve de memorial para";

(d) Jesus tinha (e tem) um e somente um corpo físico humano, e ninguém pode ter mais que um corpo literal, simultaneamente, como nas teorias da transubstanciação e da consubstanciação;

(e) se o não fermentado pão e o não fermentado suco de uva fossem corpo e sangue literais, a ceia seria antropofagia (canibalismo), que é odiada por Deus,

então concluímos que, em Mt 26:26; Mr 14:22; Lc 22:19; 1Co 11:24, evidentemente o sentido da forma verbal "2076 esti" que se harmoniza com toda a sã doutrina de toda a Bíblia é "significa, representa, é símbolo de, é figura de, serve de memorial para", por isso traduzi tal verbo pela palavra "significa".

Mt 26:26 ¶ Ora, estando eles comendo, havendo Jesus tomado o pão e havendo-o abençoado, o partiu, e o dava aos Seus discípulos, e disse: "Tomai, comei, isto REPRESENTA o Meu corpo."

Mc 14:22 ¶ E, enquanto eles estão comendo, então, havendo Jesus tomado um pão e havendo-o abençoado, o partiu e lhes deu, e disse: "Tomai, comei. Isto REPRESENTA o Meu corpo."

Lc 22:19 E Ele, havendo tomado um pão e havendo expressado toda a gratidão, o partiu e lhes deu, dizendo: "Isto REPRESENTA o Meu corpo, o qual, para- benefício- e- em- lugar- de vós, estará sendo dado; fazei isto para a relembrança de Mim."

1Co 11:24 E, havendo Ele expressado toda a gratidão a Deus, o partiu e disse: "Tomai, comei; isto de Mim REPRESENTA o corpo, o qual, para- benefício- e- em- lugar- de vós estará sendo partido; isto tudo fazei para a relembrança de Mim. "

Note que quem quer que fez a tradução "isto É o meu corpo que é partido por vós" também foi guiado por uma posição teológica (provavelmente das igrejas católicas Romana e Ortodoxa), tanto como eu ao traduzir "isto SIGNIFICA o Meu corpo que é partido por vós ". Os dicionários dão duas possibilidades para tradução, eu desprezei a 1ª e escolhi a 2ª, e ele desprezou a 2ª e escolheu a 1ª.

A diferença é que a tradução "É" é das duas igrejas católicas (Romana e Ortodoxa), é absurda, é ridícula, e grosseiramente contrária, violenta toda a Bíblia, ao passo que a tradução por mim adotada, "SIGNIFICA", tendo exatamente o mesmíssimo respaldo dos dicionários e léxicos e gramáticas, harmoniza-se perfeitamente com toda a Bíblia e não faz grosseira ofensa a todo o bom senso.

Maiores e melhores explicações sobre o caso "É" versus "SIGNIFICA", nesses 4 versos Mt 26:26; Mr 14:22; Lc 22:19; 1Co 11:24, são dadas por Huldrych Zwingli (Stephens, The Theology of Huldrych Zwingli, 255) e outros autores, que escreveram mais longamente sobre este assunto.

 

 

Exemplo 3: a VÍRGULA mais importante da Bíblia Lc 23:43:

Como o hebraico e grego originais da Bíblia não tinham pontuação, o tradutor é obrigado a interpretar a intenção de Jesus para traduzir este verso: se ele escolher favorecer a doutrina do 'sono da alma', colocará a vírgula após o 'hoje' ("Digo-te hoje, [algum dia] estarás comigo..."). Mas, se o tradutor quer harmonizar com a consciência imediata após a morte (como em Lc 16:23-25), colocará a vírgula antes do 'hoje' (Digo-te, hoje estarás comigo...)

 

 

Exemplo 4. H1254 בָּרָא BĀRĀʾ: A ação de "criar" exclusiva de Deus algo novo, sem similar, ou humanamente impossível; e, quando o contexto o exige, a partir do nada
Em hebraico há o verbo H1254
בָּרָא (bārāʾ), usualmente traduzido "criar". Seu emprego merece atenção especial. No Qal, seu uso no Antigo Testamento é exclusivamente para a atividade de Deus. Pode ter por objeto a criação dos céus e da terra (Gn 1:1), do homem (Gn 1:27), de novas condições ou acontecimentos extraordinários (Nm 16:30; Is 45:7-8; 48:7), de um coração puro (Sl 51:10), dos novos céus e nova terra (Is 65:17) etc. Por isso, entendo que bārāʾ expressa uma atuação criadora peculiarmente divina: Deus produz aquilo que antes não existia naquela realidade ou condição
Quando o contexto ensina que nenhuma matéria preexistente foi empregada, trata-se de criar a partir do nada; quando existe matéria preexistente, o verbo não deixa por isso de designar uma obra criadora que somente Deus fez, nenhuma outro ser ou força pode jamais fazer. Assim, "Deus CRIOU os céus e a terra" (Gn 1:1) à luz do contexto bíblico, foi criação a partir do nada. Mas, em Gn 2:7 Deus criou Adão do pó da terra. Era, é, e sempre será impossível qualquer criatura produzir, a partir de matéria inerte, aquele ser humano vivente que Deus criou.
Isto é muito diferente dos vários sentidos que a palavra portuguesa "criar" possui. Dizemos que uma mulher "criou seus filhos", que um fazendeiro "cria galinhas" e que um artista "criou" uma pintura, uma escultura, uma arquitetura, uma poesia ou uma música. Nesses casos, "criar" não significa o mesmo que bārā
ʾ necessariamente significa nos seus usos divinos. O próprio hebraico dispõe de outros verbos para essas atividades. Para a criação artística, um exemplo particularmente esclarecedor encontra-se em Êx 31:4. A respeito de Bezalel, aparece H2803 חָשַׁב (ḥāšab), "pensar, conceber, planejar, projetar", juntamente com H6213 עָשָׂה (ʿāśâ), "fazer, executar". Em outras palavras, o artista concebe/projeta uma obra e depois a faz usando materiais, capacidades e realidades já existentes. Não se emprega aí bārāʾ para atribuir ao artista o peculiar ato criador de Deus.
Há igualmente outros verbos para aquilo que, em português, também podemos chamar de "criar":
גָּדַל (gādal) — crescer, fazer crescer, engrandecer.
Êx 2:10: "E o menino CRESCEU..."
חָיָה (ḥāyâ), especialmente em formas causativas — conservar vivo, fazer viver.
Gn 6:19: "... para [os] CONSERVAR VIVOS contigo..."
אָמַן (ʾāman) — sustentar, cuidar como tutor, ama ou criador de uma criança.
2Rs 10:1: "... àqueles que CRIAVAM-INSTRUÍAM [os filhos] de Acabe..."
שָׁמַר (šāmar) — guardar, vigiar, preservar.
Sl 121:7: "O SENHOR te GUARDARÁ-PRESERVARÁ de todo o mal..."
É necessário ainda distinguir outros usos formalmente relacionados a bārā
ʾ. No Piel, o verbo pode significar cortar, abrir mediante corte, como ao cortar uma floresta (Js 17:15,18), e também "cortar para fora" (Ez 21:19; cf. Ez 23:47). 1Sm 2:29, "fazer-vos gordos", é analisado lexicalmente separadamente como Hiphil de um homônimo relacionado a "ser gordo", e não deve servir para definir o significado do bārāʾ "criar".
Perde-se uma informação importante quando bārā
ʾ é tratado simplesmente como se nada o distinguisse dos verbos comuns para "fazer", "formar", "produzir", "projetar", "criar filhos" ou "criar animais".
Na LTT, procuro preservar essa distinção. Conforme o contexto, expressões tais como "criar-a-partir-do-nada" ou "criar-a-partir-do-impossível" procuram tornar explícito ao falante do português aquilo que entendo ser a natureza da atuação divina naquela ocorrência específica — sem afirmar que "a partir do nada" seja, isoladamente, a definição lexical de bārā
ʾ.
Essa distinção é particularmente importante porque nosso verbo português "criar" possui um campo semântico muito mais amplo. Um homem cria filhos, cria animais, cria um projeto arquitetônico, cria uma pintura ou cria uma música. O hebraico bíblico, porém, não emprega bārā
ʾ dessa maneira para a atividade artística humana. No seu uso criador fundamental, bārāʾ marca uma obra de Deus; o contexto de cada ocorrência determina mais precisamente o que Deus trouxe à existência, produziu, transformou ou tornou realidade.

 

 

Em resumo (mesmo que inconscientemente), absolutamente todos os tradutores partem de axiomas e pressupostos e, inevitavelmente, constroem muitas de suas decisões a partir deles. Alguns desses pressupostos podem tornar-se profundamente arraigados, quase "viscerais", e praticamente impossíveis de abandonar.

A diferença é que (até onde minha consciência e o Espírito Santo testemunham a mim) minha determinação — de que não me envergonho 1 mm — sempre foi seguir o princípio de Esdras 7:10: "... tinha preparado o seu coração para buscar a Lei do SENHOR, e para cumpri-la, e para ensinar em Israel os estatutos e os juízos do SENHOR." Somente isso; intensamente isso.

Na tradução, isso significa buscar o *maximum maximorum* de literalidade normal permitido pelos melhores dicionários, léxicos e gramáticas, em máxima harmonia possível com os contextos parágrafo- capítulo- livro- toda a Bíblia. Se isso colidir com ideias anteriores minhas ou de minha igreja local, eu e ela mudaremos nossas posições; não omitiremos nem alteraremos aquilo que reconhecermos como a melhor tradução literal- normal- contextual possível.

Infelizmente, nem sempre vejo esse mesmo princípio aplicado em outras traduções da Bíblia. Há casos em que tradições teológicas, confessionais ou denominacionais, e até considerações editoriais e mercadológicas, podem exercer pressão sobre decisões de tradução. O perigo pode ser resumido assim: "Pelo texto bíblico, eu deveria adotar a tradução 1; mas isso contrariaria minhas concepções anteriores, as tradições de minha igreja ou denominação, ou seria inconveniente para o mercado a que esta Bíblia se destina; portanto, adotarei a tradução 2, ou recorrerei a uma transliteração que evite traduzir claramente o termo."    *Este é precisamente o procedimento que repudio.**

 

 

QUARTO: CONCLUSÃO

Onde alguém provar a Hélio, pela Bíblia e pelos critérios acima (Ben-Chayyim + Beza 1598, melhores dicionários, léxicos e gramáticas, e contextos parágrafo- capítulo- livro- toda a Bíblia) que fiz 1 mm do oposto daquilo que aqui defendo, eu me corrigirei, e acredito que minha igreja também.

Não peço que julguem a LTT pela alegação de que seus tradutores não tinham pressupostos. **Peço que julguem a LTT verificando se os pressupostos do coordenador da sua tradução curvaram-se ao texto, ou se o texto curvou-se aos pressupostos dele.**

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