É A Bíblia LTT Não-Literal,
Tendenciosa, Equivalência Dinâmica, Interpretação Particular No Texto E
Interpretação Literal Relegada Às Notas (na melhor das hipóteses)?
Hélio de Menezes Silva
Boa pergunta, e me dá a oportunidade de explicar o que provavelmente foi o meu maior norte duraante décadas como coordenador da tradução da LTT.
Antes de lhe responder:
Ninguém jamais diria que a KJV-1611/1769, a melhor tradução do mundo, é
uma tradução por Equivalência Dinâmica, não é? Mas o fato é que, segundo
levantamento por Scrivener, 4.111 notas das notas marginais no VT dão uma
tradução mais literal do hebraico ou caldeu, e 112 das notas marginais no NT dão
uma tradução mais literal do grego, no entanto os 47 tradutores da KJV
desprezaram, preteriram as redações literais porque julgaram superior, melhor, uma
tradução menos literal, e a colocaram no texto principal.
Portanto, fica evidente que, milhares de vezes, o texto principal da KJV
não seguiu um literalismo mecanicamente 1-palavra-por-1- palavra, mas aquilo
que chamo de "literalismo normal", que não procura forçar alegorismo
nem interpretação particular, mas se dá o honesto e honroso direito semelhante
ao de traduzir o português "ele e eu estamos batendo papo"
para o inglês "we are chatting" ("estamos conversando
informalmente"), e não para "he and I are repeatedly beating
crop against crop."("ele e eu estamos repetidamente batendo
gogó contra gogó")
Em outras palavras, milhares de vezes a nota marginal da KJV demonstra
que seus tradutores sabiam e registraram uma tradução mais mecanicamente
literal, mas julgaram melhor colocar outra tradução no texto principal.
Ser ao máximo fiel ao traduzir não significa consultar uma imaginária
"tabela de tradução 1-palavra-para-1-palavra" e reproduzir
mecanicamente, palavra por palavra, a forma superficial da língua original,
quando isso produz, na língua receptora, um sentido diferente, incompleto,
obscuro ou absurdo.
Passo a lhe responder:
PRIMEIRO: Tradução Literal-Normal, Inteligente, Espelhando Figuras De Linguagem, Expressões Idiomáticas,
etc.
Tenho diante dos olhos Marginal Notes in The 1611 King James Bible,
308 páginas. Há também na Internet uma lista pesquisável das notas marginais da
KJV 1611.
Dois exemplos impactantes no VT e dois no NT:
Gênesis 25:28
Hebraico representado mais literalmente na nota marginal: "venison
was in his mouth"
Corpo da KJV: "because
he did eat of his venison"
Ou seja, algo como "porque a caça estava em sua boca"
tornou-se "porque ele comia da sua caça". A própria fonte que
transcreve as margens usa esse caso como exemplo particularmente claro de por
que tradução não pode ser mera substituição mecânica de palavras.
Gênesis 29:6
Nota marginal: "Is
there peace to him?"
Corpo: "Is he well?"
Portanto: "Há paz para ele?" → "Ele está bem?".
Conservar mecanicamente as palavras paz + para + ele produziria inglês
gramaticalmente compreensível, mas não transmitiria ao leitor inglês normal
aquilo que a pergunta hebraica está perguntando.
1 Coríntios 4:3
Corpo da KJV: "man's judgment"
Nota marginal: "Gr. man's day"
Ou seja, o mecanicamente literal "dia do homem" foi traduzido
como "julgamento humano". Ninguém acusaria a KJV de
"Equivalência Dinâmica" porque não escreveu man's day. A tradução
mecanicamente literal das duas palavras seria, neste contexto, menos clara para
o leitor inglês comum do que a tradução escolhida pela KJV.
2 Coríntios 5:19
Corpo da KJV: "hath
committed unto us the word of reconciliation"
Nota marginal: "Gr.
put in us"
Portanto, o grego representado mais literalmente como "pôs em
nós" foi traduzido pela KJV como "confiou/ entregou a nós"
(committed unto us).
Lição: eu e todo tradutor fiel
podemos e devemos fazer, no cômputo global, coisas do mesmo tipo e grau que os
tradutores da KJV fizeram. Isso não significa imitá-los mecanicamente em cada
palavra e verso: em alguns pontos podemos fazer o que eles não fizeram; em
outros, não fazer o que fizeram; e, em determinado verso ou palavra, podemos
adotar solução de tipo ou grau diferente daquela que a KJV adotou naquele ponto
— desde que permaneçamos dentro do mesmo princípio geral de literalismo normal,
buscando transmitir com máxima fidelidade o que o texto original realmente diz,
e não aquilo que uma substituição mecânica palavra-por-palavra possa fazê-lo
parecer dizer.
SEGUNDO: Cadeia de palavras unidas por hifens
Conjuntos de palavras ligadas por hifens ("-") correspondem a
uma (1) só palavra em grego ou hebraico. Assim, além de procurar transmitir
mais completamente o significado da palavra original, os hifens dão ao leitor
uma informação que normalmente desaparece na tradução: todas aquelas palavras
portuguesas, juntas, correspondem a uma única palavra na língua fonte.
Por exemplo, {G4697 σπλαγχνίζομαι splagchnizomai} nem sempre pode ter toda a sua força adequadamente transmitida por uma única palavra
portuguesa. A palavra está historicamente
relacionada às "entranhas", consideradas como sede das emoções profundas, daí a ideia de ser
profundamente movido de compaixão. Traduzir
mecanicamente por algo como "ser-movido-nas-tripas" não comunicaria naturalmente o sentido à maioria dos
brasileiros. Por isso, conforme o contexto, uma tradução tal como "ter- íntima- e-
grande- compaixão" pode
transmitir melhor a força da única palavra grega. Os hifens, ao mesmo tempo,
avisam ao leitor: estas várias palavras portuguesas, juntas, estão traduzindo
uma só palavra grega.
Literalidade não consiste em conservar mecanicamente o mesmo número de
palavras. Consiste em conservar, tanto quanto
possível, o significado, as relações gramaticais, as ênfases e até as
ambiguidades do original. Se uma única palavra grega ou hebraica contém
significados ou nuances para os quais o português necessita de duas, três ou
mais palavras, usar essas várias palavras pode ser mais literal e mais exato do
que forçar uma única palavra portuguesa que transmita somente parte do
original.
Todas as traduções da Bíblia de orientação mais formal, desde versões
dos primeiros séculos até Lutero, Tyndale, Reina, KJV e Almeida, quando
necessário, traduzem uma palavra da língua fonte por mais de uma palavra na
língua receptora. A peculiaridade da LTT é tornar isso visível: frequentemente
liga por hifens as palavras portuguesas que, em conjunto, traduzem uma única
palavra grega ou hebraica. Assim, o hífen não pretende dizer que essas palavras
formam uma palavra normal do português; ele informa ao leitor que todo aquele
conjunto corresponde a uma única palavra existente no texto original.
TERCEIRO: Porventura não é a LTT (propositadamente)
PARCIAL, não literal, favorecendo sua posição doutrinária, Hélio?
Antes de responder, concordemos em uma coisa: não temos que escolher
somente entre "literalidade absoluta e cega" versus
"interpretação dinâmica/ paráfrase desenfreadas em cada verso". Toda
tradução de um livro necessariamente envolve algum grau de interpretação, uma
palavra aqui, outra 30 versos adiante. A questão é: quanto, quando, com que
fundamento e sob que controle do texto e do contexto. Sejamos honestos: Toda
tradução de um livro necessariamente envolve algum grau de interpretação, desde
que seja a "literal- NORMAL", de todas as pessoas normais- educadas-
inteligentes, que entendem óbvias figuras de linguagem, entendem que, em
"o estudo é porta para o sucesso" não se está falando de portas
de madeira e ferro!
RESPOSTA:
Certamente haverá pessoas que encontrarão alguns versículos nos quais,
pelo menos à primeira vista (particularmente se consultarmos apenas léxicos e
dicionários), parecem existir duas traduções diferentes, ambas linguisticamente
possíveis, às vezes com implicações doutrinárias diferentes. E haverá quem
acuse qualquer Bíblia (inclusive a LTT, claro) que escolha uma dessas
alternativas de ter sido dirigida por uma "arbitrária posição teológica
cega e preconcebida", em vez de ter sido totalmente literal- normal, e
fiel.
Minha resposta é que, nesses raros casos, é inevitável que todo tradutor
se baseie na mais sólida exegese. Dicionários não traduzem versículos: eles apenas
apresentam dezenas de possibilidades de significado. Cabe ao tradutor
determinar, pela gramática, sintaxe, contexto imediato, uso do autor e demais
contextos bíblicos pertinentes, qual dessas possibilidades é realmente o
sentido da palavra naquele lugar.
Portanto, se, depois de examinados honestamente todos esses elementos,
ainda permanecerem duas traduções linguisticamente possíveis, não existe uma
imaginária "tradução neutra" que permita ao tradutor escapar da
decisão. Escolher uma delas já é uma decisão exegética.
O importante, nesses raros casos em que parece permanecer um verdadeiro
"empate" entre duas traduções possíveis, é não escolher
arbitrariamente nem fazer a teologia do tradutor violentar o texto. Primeiro,
deve-se esgotar aquilo que o próprio texto fornece: léxico, gramática, sintaxe,
contexto imediato, contexto do livro, uso do mesmo autor e demais passagens
bíblicas pertinentes.
E, se ainda permanecerem duas possibilidades realmente admissíveis,
considero legítimo e necessário perguntar qual delas se harmoniza melhor com
toda a Escritura tomada literal-normalmente.
Isto não significa: "Minha doutrina diz X; portanto, farei o texto
dizer X." Significa exatamente o contrário: "Não permitirei que uma
possibilidade de tradução, entre duas linguisticamente admissíveis, faça uma
passagem contradizer aquilo que outras passagens ensinam claramente."
Vou além: não me envergonho 1 mm de dizer, em alto e bom som, mesmo
diante do mais severo crítico acadêmico, que, se, depois de muitas horas ou
dias de estudo, permanecesse um verdadeiro e perfeito empate técnico entre duas
traduções, ambas plenamente permitidas pelo grego ou hebraico, pela gramática e
pelo contexto, eu não escolheria deliberadamente aquela que diminuísse aquilo
que a Escritura, considerada como um todo, claramente ensina sobre Deus, Sua
natureza e Seus atributos.
No Bema, o Tribunal para galardoamento dos salvos, prefiro prestar
contas ao meu sublime Senhor podendo dizer que, entre duas traduções realmente
admissíveis, e somente depois de esgotados todos os critérios linguísticos e
contextuais, procurei não diminuir aquilo que Sua Palavra claramente revela a
Seu respeito, em vez de dizer que, sob pretexto de uma impossível neutralidade,
escolhi a alternativa contrária.
-Exemplo 1, abominável: "SANGUE" ou
"MORTE"?
No extremo de abominável, em Mt 27:25; Ef
1:7; 2:13; Cl 1:20; Rm 3:25; 5:9; Hb 13:20; 1Rv 1:5, a BLH (Bíblia na Linguagem
de Hoje) peca total e gravemente ao traduzir o grego "129 haima" (que
é "sangue", em grego) para "morte"
Mt 27:25 E
toda a multidão respondeu: —Que o castigo por esta MORTE caia sobre nós e sobre os nossos filhos! NTLH
Ef 1:7 Pois,
pela MORTE de Cristo na cruz, nós
somos libertados, isto é, os nossos pecados são perdoados. Como é maravilhosa a
graça de Deus, NTLH
Ef 2:13 Mas
agora, unidos com Cristo Jesus, vocês, que estavam longe de Deus, foram
trazidos para perto dele pela MORTE de
Cristo na cruz. NTLH
Cl 1:20 Portanto,
por meio do Filho, Deus resolveu trazer o Universo de volta para si mesmo. Ele
trouxe a paz por meio da MORTE do
seu Filho na cruz e assim trouxe de volta para si mesmo todas as coisas, tanto
na terra como no céu. NTLH
Rm 3:25 ( 25
- 26 ) Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua MORTE na cruz, Cristo se tornasse o meio de as pessoas
receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. Deus quis mostrar com isso
que ele é justo. No passado ele foi paciente e não castigou as pessoas por
causa dos seus pecados; mas agora, pelo sacrifício de Cristo, Deus mostra que é
justo. Assim ele é justo e aceita os que crêem em Jesus. NTLH
Rm 5:9 E,
agora que fomos aceitos por Deus por meio da MORTE de
Cristo na cruz, é mais certo ainda que ficaremos livres, por meio dele, do
castigo de Deus. NTLH
Hb 13:20 ( 20
- 21 ) Deus ressuscitou o nosso Senhor Jesus, que, por causa da sua MORTE na cruz, é o Grande Pastor do rebanho. E é por meio do
sangue de Jesus que a aliança eterna é selada. Que o Deus de paz lhes dê tudo
de bom que vocês precisam para fazer a sua vontade. E que ele, por meio de
Jesus Cristo, faça em nós tudo o que lhe agrada. E a Cristo seja dada a glória
para todo o sempre! Amém! NTLH
Ap 1:5 e da
parte de Jesus Cristo, a testemunha fiel! Ele é o primeiro Filho, que foi
ressuscitado e que governa os reis do mundo inteiro. Ele nos ama, e pela sua MORTE na cruz nos livrou dos nossos pecados, NTLH
(referindo-se a
Cristo) ao invés do literal "sangue" (de Cristo), e isto é totalmente
inaceitável, está perto do oposto do literalismo, nem mesmo é tradução, mas sim
odiosa distorção e traição, e isto repudio completamente.
Exemplo 2, não
usual, mas bíblico e vantajoso: "É" ou "REPRESENTA"? Considerando que
(a) a forma verbal "2076 esti", usualmente traduzida como
"é", também é traduzida como "significa" em Mt 9:13; 12:7;
Lc 8:11; Atos 2:12;
Mt 9:13 Ide, porém, e aprendei vós o que SIGNIFICA: 'Misericórdia quero, e não sacrifício'. Porque não vim Eu convidar- chamar os
justos, mas os pecadores, ao arrependimento."
Mt 12:7 Se, porém, vós tivésseis sabido o que SIGNIFICA: 'Misericórdia quero, e não sacrifício', não haveríeis condenado aqueles que estavam sem
culpa.
Lc 8:11 E SIGNIFICA isto a parábola: a semente é a Palavra
de Deus;
At 2:12 ¶ Ora, se admiravam todos, e estavam- em- dúvida- e-
perplexos, dizendo uns para os outros: "Que quer isto SIGNIFICAR?"
(b) as
ocorrências de "são" em Rv 1:20 "O mistério das sete estrelas que viste sobre a Minha mão- direita (e dos
sete lampadários de ouro) é: As sete estrelas REPRESENTAM os
mensageiros das sete assembleias, e os sete lampadários que viste REPRESENTAM
as sete assembleias." são
entendidos como "representam, significam", seria total loucura
considerar que estrelas literais, com milhões de quilômetros de diâmetro, são
literais anjos ou mensageiros- pastores de assembleias, e que assembleias
literais são castiçais literais, feitos de algum metal;
(c) na linguagem coloquial, nós apontamos para uma fotografia e dizemos
"este é fulano", e a forma verbal "é", aí, tem o sentido de
"significa, representa, é símbolo de, é figura de, serve de
memorial para";
(d) Jesus tinha (e tem) um e somente um corpo físico humano, e ninguém
pode ter mais que um corpo literal, simultaneamente, como nas teorias da
transubstanciação e da consubstanciação;
(e) se o não fermentado pão e o não fermentado suco de uva fossem corpo
e sangue literais, a ceia seria antropofagia (canibalismo), que é odiada por
Deus,
então concluímos que, em Mt 26:26; Mr 14:22; Lc
22:19; 1Co 11:24, evidentemente o sentido da forma verbal "2076
esti" que se harmoniza com toda a sã doutrina de toda a Bíblia é
"significa, representa, é símbolo de, é figura de, serve de memorial
para", por isso traduzi tal verbo pela palavra "significa".
Mt 26:26 ¶ Ora, estando
eles comendo, havendo Jesus
tomado o pão e havendo-o abençoado, o partiu, e o dava aos Seus discípulos, e disse: "Tomai, comei, isto REPRESENTA o Meu corpo."
Mc 14:22 ¶ E, enquanto eles estão comendo, então, havendo Jesus tomado um pão e havendo-o abençoado,
o partiu e lhes deu, e disse: "Tomai,
comei. Isto REPRESENTA o Meu corpo."
Lc 22:19 E Ele, havendo tomado um pão e havendo expressado toda a gratidão,
o partiu e lhes deu, dizendo: "Isto
REPRESENTA o Meu corpo, o qual, para- benefício- e- em- lugar- de
vós, estará sendo dado; fazei isto para a relembrança de Mim."
1Co 11:24 E, havendo Ele expressado toda a gratidão a Deus, o
partiu e disse: "Tomai, comei;
isto de Mim REPRESENTA o corpo, o qual, para- benefício- e- em-
lugar- de vós estará sendo partido; isto tudo fazei para a relembrança de
Mim. "
Note que quem quer que fez a tradução "isto
É o meu corpo que é
partido por vós" também foi guiado por uma posição teológica
(provavelmente das igrejas católicas Romana e Ortodoxa), tanto como eu ao
traduzir "isto SIGNIFICA
o Meu corpo que é partido por vós ".
Os dicionários dão duas possibilidades para tradução, eu desprezei a 1ª e
escolhi a 2ª, e ele desprezou a 2ª e escolheu a 1ª.
A diferença é que a tradução "É" é das duas igrejas católicas
(Romana e Ortodoxa), é absurda, é ridícula, e grosseiramente contrária,
violenta toda a Bíblia, ao passo que a tradução por mim adotada, "SIGNIFICA", tendo
exatamente o mesmíssimo respaldo dos dicionários e léxicos e gramáticas,
harmoniza-se perfeitamente com toda a Bíblia e não faz grosseira ofensa a todo
o bom senso.
Maiores e melhores explicações sobre o caso "É" versus "SIGNIFICA",
nesses 4 versos Mt 26:26; Mr 14:22; Lc 22:19; 1Co 11:24, são dadas por Huldrych
Zwingli (Stephens, The Theology of Huldrych Zwingli, 255) e outros autores, que
escreveram mais longamente sobre este assunto.
Exemplo 3: a VÍRGULA mais importante da Bíblia Lc 23:43:
Como o hebraico e grego originais
da Bíblia não tinham pontuação, o tradutor é obrigado a interpretar a
intenção de Jesus para traduzir este verso: se ele escolher favorecer a
doutrina do 'sono da alma', colocará a vírgula após o 'hoje' ("Digo-te
hoje, [algum dia]
estarás comigo..."). Mas, se o tradutor quer harmonizar com a consciência
imediata após a morte (como em Lc 16:23-25), colocará a vírgula antes do 'hoje'
(Digo-te, hoje estarás
comigo...)
Exemplo
4. H1254 בָּרָא BĀRĀʾ: A ação de "criar" exclusiva de Deus — algo novo, sem similar, ou humanamente impossível; e, quando o contexto o exige, a partir do nada
Em hebraico há o verbo H1254 בָּרָא (bārāʾ), usualmente traduzido
"criar". Seu emprego merece atenção especial. No Qal, seu uso no
Antigo Testamento é exclusivamente para a atividade de Deus. Pode ter por
objeto a criação dos céus e da terra (Gn 1:1), do homem (Gn 1:27), de novas
condições ou acontecimentos extraordinários (Nm 16:30; Is 45:7-8; 48:7), de um
coração puro (Sl 51:10), dos novos céus e nova terra (Is 65:17) etc. Por isso,
entendo que bārāʾ expressa uma atuação criadora peculiarmente divina: Deus
produz aquilo que antes não existia naquela realidade ou condição
Quando o contexto ensina que nenhuma
matéria preexistente foi empregada, trata-se de criar a partir do nada; quando
existe matéria preexistente, o verbo não deixa por isso de designar uma obra
criadora que somente Deus fez, nenhuma outro ser ou força pode jamais fazer. Assim,
"Deus CRIOU os céus e a terra" (Gn 1:1) à luz do contexto bíblico,
foi criação a partir do nada. Mas, em Gn 2:7 Deus criou Adão do pó da terra.
Era, é, e sempre será impossível qualquer criatura produzir, a partir de
matéria inerte, aquele ser humano vivente que Deus criou.
Isto é muito diferente dos vários sentidos que a palavra portuguesa "criar" possui. Dizemos
que uma mulher "criou seus filhos", que um fazendeiro "cria
galinhas" e que um artista "criou" uma pintura, uma escultura,
uma arquitetura, uma poesia ou uma música. Nesses casos, "criar" não
significa o mesmo que bārāʾ necessariamente significa nos seus usos
divinos. O próprio hebraico dispõe de outros verbos para essas atividades. Para
a criação artística, um exemplo particularmente esclarecedor encontra-se em Êx
31:4. A respeito de Bezalel, aparece H2803
חָשַׁב (ḥāšab), "pensar, conceber,
planejar, projetar", juntamente com H6213 עָשָׂה (ʿāśâ), "fazer, executar".
Em outras palavras, o artista concebe/projeta
uma obra e depois a faz
usando materiais, capacidades e realidades já existentes. Não se emprega aí bārāʾ para
atribuir ao artista o peculiar ato criador de Deus.
Há igualmente outros verbos para aquilo que, em português, também podemos
chamar de "criar":
גָּדַל (gādal) — crescer, fazer crescer,
engrandecer.
Êx 2:10: "E o menino CRESCEU..."
חָיָה (ḥāyâ), especialmente em formas
causativas — conservar vivo, fazer viver.
Gn 6:19: "... para [os] CONSERVAR VIVOS contigo..."
אָמַן (ʾāman) — sustentar, cuidar como tutor,
ama ou criador de uma criança.
2Rs 10:1: "... àqueles que CRIAVAM-INSTRUÍAM [os filhos] de Acabe..."
שָׁמַר (šāmar) — guardar, vigiar, preservar.
Sl 121:7: "O SENHOR te GUARDARÁ-PRESERVARÁ de todo o mal..."
É necessário ainda distinguir outros usos formalmente relacionados a bārāʾ. No
Piel, o verbo pode significar cortar,
abrir mediante corte, como ao cortar uma floresta (Js 17:15,18), e
também "cortar para fora" (Ez 21:19; cf. Ez 23:47). 1Sm 2:29,
"fazer-vos gordos", é analisado lexicalmente separadamente como
Hiphil de um homônimo relacionado a "ser gordo", e não deve servir
para definir o significado do bārāʾ "criar".
Perde-se uma informação importante quando bārāʾ é
tratado simplesmente como se nada o distinguisse dos verbos comuns para
"fazer", "formar", "produzir",
"projetar", "criar filhos" ou "criar animais".
Na LTT, procuro preservar essa distinção. Conforme o contexto, expressões tais
como "criar-a-partir-do-nada"
ou "criar-a-partir-do-impossível"
procuram tornar explícito ao falante do português aquilo que entendo ser a
natureza da atuação divina naquela ocorrência específica — sem afirmar que
"a partir do nada" seja, isoladamente, a definição lexical de bārāʾ.
Essa distinção é particularmente importante porque nosso verbo português "criar" possui um campo semântico
muito mais amplo. Um homem cria filhos, cria animais, cria um
projeto arquitetônico, cria uma pintura ou cria uma música. O hebraico bíblico,
porém, não emprega bārāʾ dessa maneira para a atividade artística
humana. No seu uso criador fundamental, bārāʾ marca
uma obra de Deus; o contexto de cada ocorrência determina mais precisamente o que Deus trouxe à existência, produziu,
transformou ou tornou realidade.
Em resumo (mesmo que inconscientemente), absolutamente todos os
tradutores partem de axiomas e pressupostos e, inevitavelmente, constroem
muitas de suas decisões a partir deles. Alguns desses pressupostos podem
tornar-se profundamente arraigados, quase "viscerais", e praticamente
impossíveis de abandonar.
A diferença é que (até onde minha consciência e o Espírito Santo
testemunham a mim) minha determinação — de que não me envergonho 1 mm — sempre
foi seguir o princípio de Esdras 7:10: "... tinha
preparado o seu coração para buscar a Lei do SENHOR, e para cumpri-la, e para
ensinar em Israel os estatutos e os juízos do SENHOR." Somente
isso; intensamente isso.
Na tradução, isso significa buscar o *maximum maximorum* de literalidade
normal permitido pelos melhores dicionários, léxicos e gramáticas, em
máxima harmonia possível com os contextos parágrafo- capítulo- livro- toda a
Bíblia. Se isso colidir com ideias anteriores minhas ou de minha igreja local,
eu e ela mudaremos nossas posições; não omitiremos nem alteraremos aquilo que
reconhecermos como a melhor tradução literal- normal- contextual possível.
Infelizmente, nem sempre vejo esse mesmo princípio aplicado em outras
traduções da Bíblia. Há casos em que tradições teológicas, confessionais ou
denominacionais, e até considerações editoriais e mercadológicas, podem exercer
pressão sobre decisões de tradução. O perigo pode ser resumido assim: "Pelo
texto bíblico, eu deveria adotar a tradução 1; mas isso contrariaria minhas
concepções anteriores, as tradições de minha igreja ou denominação, ou seria
inconveniente para o mercado a que esta Bíblia se destina; portanto, adotarei a
tradução 2, ou recorrerei a uma transliteração que evite traduzir claramente o
termo." *Este é
precisamente o procedimento que repudio.**
QUARTO: CONCLUSÃO
Onde alguém provar a Hélio, pela Bíblia e pelos critérios acima (Ben-Chayyim
+ Beza 1598, melhores dicionários, léxicos e gramáticas, e contextos parágrafo-
capítulo- livro- toda a Bíblia) que fiz 1 mm do oposto daquilo que aqui
defendo, eu me corrigirei, e acredito que minha igreja também.
Não peço que julguem a LTT pela alegação de que seus tradutores não
tinham pressupostos. **Peço que julguem a LTT verificando se os pressupostos
do coordenador da sua tradução curvaram-se ao texto, ou se o texto curvou-se aos
pressupostos dele.**
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